terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A saga da Arte

Arte nasceu não na segunda, mas na primeira-feira
e vai morrer não numa sexta, mas numa sétima-feira
Assim é quem já foi subversivo e perigoso.
E ela foi. Ora se foi!
Foi negada,
foi ofendida,
foi expulsa,
foi torturada,
foi assassinada.
Sim, ela foi. Ora se foi!
Mas é tão forte que voltou e volta em mil encarnações.

Arte muda vida, muda o mundo.
Muda as coisas em um segundo.
Arte é esperta,
dribla a todos que por ela passa,
dá um jeito e se encaixa
na vida de qualquer um.

Arte um dia talvez tenha sido uma só,
o espírito dela agora são dois.
Agora são almas gêmeas, da mesma origem.
Não sabem ou negam suas raízes,
apenas brigam.
Elas se socam e se descabelam,
e se arranham,
e se empurram,
e se xingam...
Fazem guerra.
– Você não é arte – uma delas berra.
– Você que não é – a outra esbraveja,
e as duas rolam na terra.

Às vezes temos a impressão de que arte é louca,
de que Arte é vazia,
de que Arte é chocha,
de que Arte é chata,
de que Arte é chula,
de que Arte é ultrapassada.
De que Arte é o quê mesmo?
De que arte está falando?
Não seria arte clássica
ou a arte do malandro?

Arte está aí,
quem quiser pode vir.
Ela é de todos e de ninguém.
Sabe disso quem a conhece bem.

Arthur M. Vargens

sábado, 5 de setembro de 2009

Naftalina

Naftalina
Sua casa agora é naftalina
Tem naftalina em toda a casa
Em toda a casa, naftalina

Naftalina nas gavetas, no balde, no canto
No armário, na escrivaninha, debaixo do santo
Naftalina no baú e no balde... de lixo
Lixo da cozinha, lixo do banheiro, lixo do quintal
Naftalina em tudo o que é de plástico, de pano, de pau

Naftalina, naftalina
Sua casa cheira a naftalina
Sua roupa cheira a naftalina

Vai afugentar as baratas
As mariposas também
E as aranhas, as lacraias
Todas elas pro além
Naftalina no armazém

Naftalina
Seu mundo cheira a naftalina
Sua vida cheira a naftalina

Tem naftalina em todo canto
Embaixo da cama, da cômoda
E embaixo do sofá, naftalina é o que há
E tudo cheira a naftalina
A parede, o teto, o chão
Seu travesseiro, seu lençol, seu colchão

Naftalina
Seu mundo agora é naftalina
Tudo cheira a naftalina

Naftalina, insulina, nitroglicerina

Arthur M. Vargens

sábado, 22 de agosto de 2009

Em tempo presente

Agora cantarei ao anoitecer
porque os suspiros da noite são os aspiros do próximo dia.

Fugirei para a vida ao anoitecer,
para a paisagem que já criei,
mas que não há em matéria...
ainda...
que não há, também, na realidade de meus companheiros de mundo, de vida, de existência.

Estes, certamente diriam que estou caduco,
me entupiriam de entorpecentes,
me acorrentariam,
veriam em mim o perigo, o inimigo.

Não!

Cantarei ao anoitecer.
Porque a noite espera um novo dia.
Porque as esperanças que são minhas
aguardam um novo dia
para viajarem por outra via.

Arthur M. Vargens

Pois é, Borat...

Olhar pra frente e ver atrás
Washington, London, La Paz
Bahia, Acre, Minas Gerais
Que diferença faz?

Austrália, Europa
Sudeste, Nordeste
Tudo a mesma peste

É tudo igual
Na zona urbana ou na rural
São Paulo, Recife, Natal
No Distrito Federal

Tudo igual
Dá no mesmo a capital
Dá no mesmo o interior
Itabuna, Salvador
Seja lá onde for

Tanto faz se é ali na esquina
Tanto faz se é lá na China

Dá no mesmo, tanto faz
Olhar pra frente e ver atrás

Arthur M. Vargens

terça-feira, 2 de junho de 2009

Científico

Desenhei um ponto de interrogação na areia da praia
As nuvens desenharam no céu, eu vi
Desenhei no coqueiro e no coco
No copo que eu bebi

Fiz um ponto de interrogação em mim
Em minha testa, em minha boca
Em minha barriga, em minhas costas
Em minha pica, em minha bunda
Em meus pés, na sola, no dedo, na unha

Botei um ponto de interrogação em minha casa
Na frente e nos fundos
Em meu teto, em meu chão, nas paredes, no colchão
Na janela, na porta, pia, vaso e chuveiro
No quintal, na sala, no banheiro
Vários pontos de interrogação no meu espelho

Risquei um ponto de interrogação em tudo
No céu, no mar, nas árvores
Na pedra, na terra, no vidro, no ferro
Desenhei no ar
E cada ponto que desenhei
Ainda hoje eu vejo lá

Arthur M. Vargens

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Pereba

a Rejane, do lado de cá do espelho

Eu tenho uma doença
Você também
Um verme, um germe que dá em alguém
Uma bactéria venérea que se pega no ar
Pega de estar perto, só de respirar

Vem do lugar ou do parto, na maternidade
Vem do ar ou do mar
Vem dos fatos, na eternidade

Sinto frio, um calafrio
Quero vomitar
Me dói a garganta
Me sufoca, me esgota

Dói o estômago
Dói o pulmão
Dói cada nervo ou veia irrigando coração
Dói... Dói... Dói...

Vem da poeira da rua
Da poeira dos livros
Vem da poeira de casa ou dos cromossomos
Não sei bem de onde vem essa doença de ser quem nós somos

Eu tenho um vírus
Você também
O pior que já habitou em alguém

Arthur M. Vargens

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Pulsão thanática

Agora nada mais vejo
Nada mais ouço
Nada mais penso
Nada mais toco
Nada mais cheiro
Nada mais sinto
Não há mais frio ou calor
Não há mais prazer ou dor
Não há mais tristeza ou alegria
Não há mais noite ou dia
Não há mais meta ou feito
Não há mais esquerdo ou direito
Não há mais desperdício ou proveito
Não há mais mole ou duro
Não há mais claro ou escuro
Não há mais derrota ou vitória
Não carrego mais memória
Nada mais é reto, nem torto
Tudo acabou
Estou morto

Arthur M. Vargens